don't tell mom the babysitter's dead: adolescentes que seguram looks e cigarros
- melody erlea

- há 4 dias
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primeiro que um filme cuja primeiríssima cena se passa num brechó - num brechó daqueles que dá gosto de ver, que enchem os olhos, que dá vontade de se teletransportar no tempo e espaço pra poder frequentar aquele brechó específico em los angeles em 1991 - já me ganha imediatamente. não teria como eu não gostar desse filme, foi jogo sujo quase.

segundo que não dá pra resistir a um filme com incríveis figurinos da virada dos anos 80 pros 90, quando o minimalismo carolyn-bessette-chic ainda não tava totalmente no mainstream e a gente ainda via aquela influência expansiva e colorida da década de 1980 na moda.
os looks da christina applegate nesse filme são de babarrrrr, e a personagem dela pode parecer, inicialmente, apenas mais uma adolescente fútil que gosta de moda para acompanhar tendências, mas conforme os eventos se desenrolam e ela acaba assumindo uma posição de assistente administrativa de uma executiva de moda a gente percebe que o domínio fashion dela vai além de comprar acessórios maximalistas em brechó e usar luquinhos fashion adolescentes. a mudança em suas escolhas de estilo quando ela começa a trabalhar num escritório mostram que ela entende a linguagem de moda para além do universo teen, e é capaz de criar os mais lindos looks corporativos mantendo uma assinatura de estilo que é só dela. os blazers oversized em combinações de cores divertidas, os brincões pesados e impactantes que são mantidos, e até as surpreendentes escolhas de styling que começam quando ela escolhe a roupa para o dia da entrevista e junta um tailleur estilo chanel com uma blusinha psicodélica por dentro. das doc martens verdes aos scarpins, gente, isso é chef's kiss, isso é um figurino brilhante, cinco estrelas, nota 10, ganhador do oscar (ou pelo menos o oscar do meu coração).
terceiro que o enredo desse filme é uma maluquice que só poderia sair de uma sala em algum estúdio em hollywood cheia de escritores cocained-fueled, com cenas completamente desconectadas do resto do roteiro cuja única função é fazer a gente rir, tipo quando o carro da babá é roubado por três drag queens (liza minelli, marylin monroe e dolly parton) e depois a gente nunca mais fica sabendo o que aconteceu com o carro ou com as queens. me lembrou de leve a piração dos roteiros dos filmes da madonna dos anos 80, quem é essa garota e procura-se susan desesperadamente, uma sequência de eventos sem pé nem cabeça que a gente aceita puramente pelo entretenimento, porque se parar pra pensar fica difícil suspender a descrença.
o filme é um apanhado de recortes de grandes hits dos anos 80: tem um toquinho de quero ser grande, com a protagonista adolescente sendo contratada pruma posição de leve prestígio dentro de um empresa sobre a qual ela não sabe nada; tem um tempero de curtindo a vida adoidado, com os adolescentes vivendo uma vida de aventuras juvenis pela cidade sem supervisão adulta, e tem até um quê de breakfast club, com um retrato da adorável rebeldia adolescente e até um makeover do personagem mais alternativo, que é sumariamente transformado num normie que decide que quer ter um futuro, after all.
para além das referências 80s, o filme prevê algumas tropes que ficariam famosas em filmes e séries dos anos 90 e 2000: eu senti um sabor de diabo veste prada (temos uma mentora fashionista chefe de uma empresa de moda e uma assistente inexperiente) e emily in paris (sem esforço nenhum, nenhuma experiência e tendo uma ideia aparentemente brilhante out of nowhere a personagem da christina applegate consegue resolver um grande problema da empresa em que trabalha e vira a queridinha da indústria aclamada por todos), além do bem reconhecível toque de esqueceram de mim, com a diferença que no filme do macaulay culkin a mãe o abandona acidentalmente, já em don't tell mom the babysitter's dead a mãe decide simplesmente largar os cinco (CINCO!) filhos em casa nas férias de verão enquanto ela vai viver uma aventura na austrália com o namorado.
taí algo que só poderia acontecer nos anos 80/90, uma mãe largar as criança tudo pra se virarem sozinhas por meses. isso aí hoje em dia é tabu dos grandes, mas nos anos 80 parecia que deixar seus filhos adolescentes e, pasmem, fumantes em casa sozinhos era meio que o que se fazia. ou pelo menos é o que hollywood quer que a gente acredite (mas imagino que era isso mesmo, nos estados unidos tinha até aquele aviso na TV às 22h: "it's 10pm, do you know where your children are?" acho que aqui no brasil e américa latina a gente também tinha um pouco mais de liberdade, quem cresceu nos anos 80 e 90 sabe que era diferente de hoje - quer dizer, isso é o que me dizem, no meu caso eu tinha uma mãe bem superprotetora que jamais teria deixado eu ficar perambulando por aí sozinha).
o plot dos cinco irmãos sozinhos em casa tendo que se virar sem os pais me lembrou também, de leve, a série party of five, ainda que na série eles se encontram sozinhos por causa do triste falecimentos dos pais, não porque a mãe decidiu curtir as férias longe dos filhos. party of five é menos absurdo, mais sério e mais tocante, tipo pra quem gosta de um drama familiar leve, mas, assim como o filme don't tell mom..., toca em alguns assuntos típicos da adolescência, como mudanças e transformações, medos, inseguranças, pressão, ambições para o futuro... só que em don't tell mom... tudo isso é envolto num sequência de incoerências humorísticas e looks impactantes que deixam tudo mais leve e mais com gostinho de "pô, eu queria viver tudo isso aí". afinal, que adolescente nunca sonhou em poder ficar sozinho em casa por dois meses sem ter que seguir regras, ouvir bronca, cumprir responsabilidade?

e, finalmente, a cereja no bolo de qualquer filme que me encanta de primeira: a trilha sonora é boa d+++, com lindas canções dos anos 40 e 50, e algumas músicas dos anos 80 e 90, em versões diferentes das mais populares (inclusive versões difíceis de achar pela interwebs). vou destacar a belíssima i only have eyes for you, originalmente do conjunto the flamingos. a versão do filme é outra completamente, que não encontrei nem no spotify nem no youtube, mas que está aqui nessa página do internet archive. eu amei a versão do filme, amo a versão original e tenho carinho mega especial por uma versão da era indie sleaze, nos idos anos 2000, do ep de uma banda chamada summer camp. seguem a versão dos flamingos e do summer camp para apreciação:
encerrarei esse singelo o post com uma das coisas mais maravilhosas do filme: YOUNG FOX MULDER! li em algum lugar da internet que foi uma luta pra colocar o david duchovny nesse elenco, porque ele nunca tinha feito nada e parecia, para os produtores, um cara "não muito inteligente" (ele é só formado, pós graduado e phd por princeton e yale em literatura e inglês, tá, meu bem? aliás, saber que o mulder fez letras, assim como eu, sempre me dá um quentinho no coração). mulder com luquinhos fashionistas e cabelo lambido de gel, o mundo precisa disso.



























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