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estilo é melhor fora da internet

  • Foto do escritor: melody erlea
    melody erlea
  • há 16 horas
  • 7 min de leitura


o problema de consumir estilo e moda nas redes sociais, é que muitas vezes a gente se volta para o consumo material, quando apreciação de estilo pessoal devia ser o que eu vou chamar de consumo intelectual.


não porque olhar looks, seja na vida real ou na internet, seja por si só um exercício intelectual do tipo acadêmico - não é a mesma coisa que ler teóricos de moda e consumo, de semiótica, de história e sociologia da moda. mas é um exercício intelectual no sentido de expandir nosso alcance mental quanto a possibilidades criativas dentro da ação rotineira que é vestir uma roupa. é consumo intelectual porque adiciona referências ao nosso repertório, aumenta nossa percepção de possibilidades, faz cosquinhas no nosso cérebro, sabe?


e é por isso que eu sinto que meu estilo se desenvolveu de uma maneira diferente, mais autêntica e mais honesta, quando eu parei de fazer fotos e vídeos dos meus looks diariamente. fora da internet, as roupas que usamos são menos voltadas para a performance para um público numeroso e incontrolável, que vai decididamente querer links e dicas e atalhos para desenvolver seu próprio estilo. fora da internet, a roupa que vestimos não precisa performar engajamento em até 5 segundo para garantir a retenção de um público que recebe conteúdo de maneira passiva via um algoritmo. fora da internet, é menos sobre impactar de imediato para manter uma audiência, e muito mais sobre reter o olhar de alguém por tempo o suficiente para que detalhes, escolhas, intenções sejam percebidas e absorvidas. sem atalhos, só observação, reflexão, curiosidade e esforço.



estilo pessoal bom não é o de uma pessoa que você viu por acaso no feed de uma rede social e que vai desaparecer no segundo que você rolar o dedo pro próximo vídeo. estilo pessoal bom é aquele que você percebe quanto mais tempo passa com a pessoa que está vestindo a roupa. são as sutilezas que não performam para algoritmos: não é o vestido maximalista de tule colorido, mas sim um detalhe que é quase invisível num vídeo ou foto na internet. é um colarinho levantado num lado, é o jeito que um tecido cai sobre um corpo humano e se movimenta junto com ele, um botão especial, um broche que só quem olhar de perto vai notar, o forro de um casaco que a gente só vê quando a pessoa o desveste e pendura na cadeira. são esses detalhes que criam uma linguagem que só quem está prestando atenção consegue ler, são esses detalhes que contam a história de um look - ou um guarda-roupa - onde há intenção, cuidado, escolha consciente. mesmo que não sejam detalhes que, na internet, ganhariam milhares de likes imediatos.


estilo pessoal bom mesmo é o que é criado não para ser assistido - numa tela, num palco, num evento de moda - mas para ser usado, vivido, praticado diariamente. as sutilezas de um bom estilo pessoal desaparecem na rapidez e poluição virtual das redes sociais, em que acabamos nos voltando para fórmulas de sucesso de engajamento que, às vezes, são pouco representativas do que queremos vestir por nós mesmas, e mais representativas do que um público online anônimo parece apreciar.


uma grande diferença de assistir estilo pessoal na internet e observar estilo pessoal na vida real é o tal do consumo material vs. intelectual que mencionei no começo. um vídeo ou uma foto de look na internet, que ganha adesão e engajamento por sua capacidade de impactar e reter atenção online, costuma causar na audiência a sensação de "se eu quiser causar o mesmo impacto, tenho que ter esse item". a gente cai num looping perigoso do querer comprar o que vemos na tela, porque parece que reproduzir aquilo nos trará a mesma sensação de acerto, de admiração, que aquela criadora de conteúdo parece ter online. é um sistema de recompensa material que brinca com nossa endorfina, e o estímulo se repete cada vez que vemos outro vídeo, outra foto, outra influencer com roupa extravagante.


já observar estilo na vida real causa outra reação: a gente não tá assistindo os likes, os comentários e os compartilhamentos, a gente não tá preso na falsa ideia da popularidade aparentemente instantânea causada por um look ou um item de moda. apreciar ou entender o estilo pessoal das pessoas ao nosso redor é um exercício de tempo, de observação, de interpretação, de critério pessoal. é uma descoberta que só existe enquanto observador e objeto de observação passam tempo o suficiente no mesmo ambiente para que detalhes e sutilezas sejam identificados. é um exercício do nosso próprio olhar e do que ele é capaz de enxergar, de apreciar. quanto mais tempo a gente passa com alguém que exercita estilo pessoal, mas a gente passa a reconhecer certas escolhas, certas assinaturas.


talvez seja uma pessoa do seu trabalho, talvez alguém que você veja no metrô ou ônibus todo dia, alguém que faça um curso semanalmente com você, ou que você veja pelos corredores da faculdade. o estilo pessoal desse indivíduo se abre para o nosso olhar aos poucos, conforme vamos colecionando observações. aos poucos percebemos que aquela pessoa costuma usar certas cores ou tons, ou que os tecidos de sua escolha são mais maleáveis e leves, ou mais estruturados e arquitetônicos. talvez a gente perceba que a pessoa troca de bolsas ou sapatos mas mantem os mesmos anéis e brincos. talvez percebamos que o cabelo, ou o óculos, ou até o jeito que uma manga de jaqueta está dobrada, são recorrências visuais, escolhas constantes.


é com observação contínua de alguém da vida real cujo estilo admiramos que passamos a entender a linguagem visual desse indivíduo, as escolhas por trás das roupas, e também o que mexe com nosso cérebro, o que chama a atenção do nosso olhar, o que nos intriga, o que nos repele. essas observações não tem o objetivo de comprar ou consumir no sentido capitalista, mas apenas de refinar nosso repertório visual, adicionar ideias interessantes às nossas referências, consumir possibilidades visuais. esse exercício diário de observação de estilo não existe na internet, porque o que consumimos na internet não foi pensado para o olhar sutil e lento da vida real, mas sim para alimentar uma projeção algorítmica veloz e materialista.


para além disso, quando a gente conhece mais pessoalmente o indivíduo cujo estilo admiramos, e temos mais próximo contato com suas referências culturais, seus gostos, sejam eles musicais, gastronômicos, televisivos, artísticos, mais uma camada se abre na compreensão das escolhas de estilo daquela pessoa.


foi num texto do substack gatekept que li sobre a ideia de "auto-conceito", termo cunhado pelo psicólogo morris rosenberg. auto-conceito nada mais é do que a totalidade de pensamentos e sentimentos de um indivíduo em referência a si mesmo como um objeto de observação. aplicado à moda e comportamento, auto-conceito é aquele pedaço de você que você controla para que outros te enxerguem da maneira que você se enxerga, ou da maneira que você quer ser entendido. quando a gente fala de auto-conceito na vida real, esse controle da percepção de outrem sobre nós diz respeito a um público bem menor, mais facilmente distinguível, e que terá acesso não apenas ao visual de quem você é (suas roupas, seu cabelo, seu corpo) mas também a essa camada extra de repertório cultural a qual só temos acesso ao conviver com alguém. e estilo pessoal é construído não apenas de roupas, mas também de repertório cultural.


lindos casacos vintage que garimpei por aí
lindos casacos vintage que garimpei por aí

quando a gente passa do pessoal pro virtual, o público é muito maior e tem menos acesso a essa parte de nós que vai além do visual. o controle de como somos lidos é mais complexo, mais vulnerável, e também esbarra na necessidade de performar bons resultados algorítmicos. o auto-conceito passa a ser menos sobre quem eu sou frente a outra pessoa, e mais sobre quem eu preciso ser para alcançar um público que se identifique com o que eu publico. o gosto coletivo do outro tem mais poder sobre nossas escolhas no virtual do que no pessoal, porque vai decidir o tamanho do nosso sucesso dentro do ambiente online.


pensando no meu estilo, e em como ele se desenvolvia quando eu postava frequentemente na internet - em relação a atualmente, em que ele se desenvolve majoritariamente pra ser apreciado na vida real - percebo claramente que meu gosto era construído mais para observação pública do que uso real: precisava haver uma verossimilhança visual para que meu estilo parecesse passível de ter um nome, de ser encaixado numa categoria, e de causar impacto o suficiente para gerar likes, comentários, mensagens. fora dos holofotes virtuais, eu tô mais preocupada em abastecer uma satisfação pessoal que se traduz nas escolhas de moda que faço: uma bolsa divertida, um item vintage, uma peça de roupa volumosa, um sapato diferente, os anéis vintage da minha vó, um par de brincos surpreendente (mas que só será visto por quem chegar perto e prestar atenção). as roupas que adquiri após ter terminado minha página no instagram me parecem ter possibilidades mais longínquas de uso e caber melhor do meu guarda-roupa do que algumas que eu adquiria por compreender o impacto visual virtual que elas teriam. a maneira como eu combino minhas roupas e penso meus looks é mais autêntica e mais orgânica atualmente, pensadas não para a aprovação de um grande público virtual mas para a observação e, quem sabe, encantamento, de uma audiência bem menor e bem mais próxima de mim fisicamente.


flex: eu tinha uma bolsa de telefone, a moschino lançou uma bolsa de telefone; eu tinha uma bolsa de girafa, a chanel lançou uma bolsa de girafa (ambas de marcas brasileiras visionárias que fizeram antes das gringas de luxo)


a proximidade da descoberta do estilo pessoal de alguém na vida real permite sutilezas que vão além de reconhecer um item; sutilezas que estão relacionadas mais a como certos itens são usados e interpretados. não é sobre o que, mas sobre como.


e é isso que eu quero ver quando eu penso em estilo pessoal: looks, roupas e itens que compõe uma história, que me causam curiosidade de olhar mais, de pesquisar, de ir atrás, de entender algo ou alguém. eu não quero ser incentivada a comprar nada - eu quero poder observar, com calma e expectativa, detalhes que me abrem um mundo pessoal sobre alguém ao qual eu não teria acesso não fosse pelas escolhas de estilo. eu quero assistir a pessoas cujo estilo é composto de detalhes visíveis apenas por quem está procurando, não por um grande ponto focal que se enxerga de longe e se esquece logo depois.


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