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elegia a azzedine alaia e karl lagerfeld

  • Foto do escritor: melody erlea
    melody erlea
  • 19 de fev. de 2019
  • 3 min de leitura

(22/nov/2017)

um tempo atrás fiz um post falando sobre o consumo de moda na era dos blogs: continuo afirmando que muitos blogs de moda são uma repaginação da velha publicidade de moda, fantasiados de diário de roupa de meninas supostamente comuns. falei, no texto, que em blogs de mulheres que REALMENTE gostam de moda e de roupa, a gente vê e lê conteúdo relevante, interessante e inteligente. mas, infelizmente, o grande serviço que a maioria dos blogs de look do dia prestam é tentar convencer a gente a comprar porrinha fashion. publipost, cupom de desconto pras seguidoras, banner de propaganda..... isso não é trabalho de quem gosta de roupa, isso é trabalho de publicitário.


azzedine alaia, um dos grandes estilistas da história da moda, que começou sua carreira como alfaiate de christian dior, e de lá pra cá já vestiu michelle obama, lady gaga, naomi campbell, foi homenageado pela madonna e carregado no colo por grace jones pra receber o "oscar da moda" de melhor estilista em 1984, faleceu há 10 dias, mas deixou pra gente uma bela chicotada nesse sistema de moda que é muito mais publicidade do que, né, moda.


azzedine era conhecido por desprezar a cultura de marketing das grandes casas de moda, e sempre focou mais na arte do fazer roupas do que em vender "it bags" ou os sapatos do momento. por causa disso, as grandes mídias de moda acabaram o deixando de lado - a vogue sob o comando de anna wintour não fotografa e publicava suas criações há anos. isso porque, na visão dele, anna tem um papel puramente de relações públicas e marketeira - sua compreensão de moda e seu bom gosto são escassos, e ela foca em marcas e estilistas que garantem likes, polêmicas e compartilhamentos.


isso tudo ele disse numa entrevista que não está mais disponível online, mas o trechinho acima eu peguei da vogue. pra alaia, karl lagerfeld representa na alta moda o que os blogs de moda são pra mim: muito mais talento pra publicidade do que talento pra usar/fazer roupas. ele comenta que lagerfeld gosta de se expôr na mídia e de vender seu rosto, sua imagem e seu status pra fazer publicidade - coisa que o próprio azzedine jamais fez.


rest in peace, azzedine.


(19/fev/2019)

em uma cena das patricinhas de beverly hills, alicia silverstone (a já icônica cher no filme) tem uma arma apontada pra sua cabeça e um bandido que a manda deitar no chão enquanto ele leva sua bolsa embora. ela responde, num desespero quase palpável, olhando pra própria roupa "mas amigo, cê num tá entendendo, isso é um ALAIA"


azzedine alaia foi um dos maiores estilistas da história, embora seu nome seja bem menos reconhecível do que o de karl lagerfeld. pouco antes de morrer, em 2017, ele deu uma entrevista na qual, entre outros venenos destilados, dizia que lagerfeld não era um estilista, e sim uma caricacura. alaia acreditava que karl contribuia pra esse status da moda atual que é, incrivelmente, tão demodé, de ostentação vazia e consumo desenfreado. pra ele, o estilista da chanel era um multitalentoso showman que jamais havia pego em um par de tesouras na vida - mas sabia em que fotos aparecer, para que marcas fazer propaganda, em que festas ir, e assim garantia seu sucesso e a popularidade de seu nome. azzedine dizia que preferia morrer do que colocar seu rosto em propagandas.


por sua vez, após a morte de azzedine, karl afirmou que não partilharia de nenhum tipo de luto por ele - preferia reconhecer o falecimento apenas como o fim de um de seus inimigos (e completou dizendo que alaia não fez mais do que produzir sapatilhas pra fashionistas na menopausa)


hoje faleceu, também, lagerfeld, e eu só queria saber o que alaia teria dito quando dessa ocasião. que ele era uma caricatura, claro, e que, mesmo sem ser citado nas patricinhas de beverly hills, ele é um rosto e um nome que representam mais a moda do que, necessariamente, as roupas que fazia. (até porque, lá em 95, karl não teria nem etiqueta própria, e cher estaria falando de sujar um chanel, não um lagerfeld, mas a gente saberia o nome dele mesmo assim, e se isso não é ser um ícone, não sei mais o que pode ser)

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