sobre bolsas de telefone e uma estilista surrealista
- melody erlea

- há 6 horas
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faz pouco mais de um ano que adquiri uma incrível bolsa em formato de telefone. é uma bolsa incrível, conversa com uma moda surrealista reminiscente de elsa schiaparelli que eu amo, é chique e irreverente e chama atenção por onde eu passo. é realmente um design incrível e original de uma marca brasileira conhecida por sua autenticidade... or is it?
desde a semana de moda carioca, que aconteceu em abril desse ano, tá rolando no instagram uma discussão interminável e repetitiva sobre originalidade nas criações das marcas que desfilaram no rio e as infames cópias descaradas. eu não vou entrar nesse mérito, não quero falar sobre fashion rio, mas a real é que a dinâmica de criação de moda no brasil segue a mesma lógica há mais de 100 anos: primeiro a gente vê o que se faz lá fora, em paris, milão, nova york, e depois a gente reproduz aqui só que com mais cor e mais pele de fora.
o que vou propor aqui é uma discussão similar, mas com outro questionamento. porque copiar uma saia que a chanel desfilou em outubro e colocar na passarela de semana de moda carioca em abril é, pra dizer o mínimo, levemente cafona. mas e quando a inspiração, o design original, é menos recente, menos óbvio e mais difícil de rastrear (mas, também, mais interessante)?
e quando a gente só descobre uma cópia por um acaso completamente aleatório, uma coincidência qualquer? porque turns out que minha bolsa de telefone made in rio, é, na verdade, uma cópia ipsis litteris de uma bolsa de uma estilista francesa pouco conhecida em terras latino-americanas, que entre a década de 1940 e 1970 brincou com o surrealismo em suas criações.

anne marie of france era uma marca francesa de alta costura que fazia bolsas em formatos diversos, de balde com gelo e garrafa de champanhe (ideia parecida com uma atual bolsa da moschino), deck de cartas (design depois recriado bem parecidinho pela betsey johnson), e maço de cigarro chesterfield (que me lembrou uma da marca moloko).
apesar da versão da betsey johnson, que é bem similar, fica óbvio aqui que nem tudo é cópia: a moschino é desde sempre surrealista e kitsch, e uma bolsa de garrafa de champanhe é diferente da proposta de anne marie do balde com gelo. a bolsa imitando caixa de marlboro da mondo moloko claramente não foi copiada - o conceito pode ser o mesmo, uma bolsa de maço de cigarro, mas a proposta e execução são completamente diferentes da de anne marie e claramente partem de uma ideia e um design originais. é claro que pessoas diferentes em lugares e épocas diferentes terão ideias parecidas, e a autenticidade está menos na ideia em si e mais em como ela é executada. materiais, tamanho, formalidade/informalidade, cores, referências, preço, público alvo... o conjunto desses e outros elementos é o que resultará num produto original (ou não).
falei num post recente sobre roberta di camerino e algumas de suas inovações em design de bolsas femininas que foram assimiladas e creditadas a outras grandes maisons - ainda assim, nunca copiadas literalmente de roberta, e sim reinterpretadas para atender a estética e proposta de cada grife. na moda, assim como na arte, no cinema, na literatura e na música, ideias e elementos são remixados, sampleados, reimaginados, referenciados. em teoria literária a gente chama isso de intertextualidade - em outras áreas artísticas isso é frequentemente confundido com plágio. a linha tênue entre plágio e inspiração está justamente no remix, na combinação única de referências e repertório que transforma um conceito em algo novo, que nos faz perceber que aquele mix específico de alusões a ideias já existentes só acontece daquele jeito quando criado por aquele indivíduo - seja ele um estilista, um músico, um pintor ou escritor.
no entanto, há vezes em que a referência original é obscura o suficiente pra alguém poder copiar sem grandes medos de ser descoberto. mas sempre tem uma pessoinha por aí, do tipo viciada em interwebs, que acaba esbarrando no original. em tempos de internet há pouquíssimo que não possa ser descoberto por uma mente curiosa e ociosa. e às vezes a descoberta nem requer muita pesquisa: ela só aparece no nosso feed enquanto rolamos o dedinho pelas páginas que a gente segue.

foi numa dessas que vi, na página de um sebo gringo que amo acompanhar - e do qual já comprei um incrível scrapbook do velvet underground - um post com imagens de um livro sobre sapatos vintage. e justamente na primeira imagem o sapato aparecia ao lado de uma bolsa idêntica à minha bolsa de telefone. fiquei tipo OXI???
vejamos bem: bolsas em formato de telefone existem por aí, vintage e modernas, de diversos materiais e cores. a moschino recentemente desfilou uma, e meu algoritmo esses dias me mostrou uma dos anos 1960 em um material que parece vinil ou plástico, à venda com etiqueta, nunca usada (!!!), em um brechó gringo. a betsey johnson também tem sua versão. com uma rápida pesquisa no google encontra-se dezenas de bolsas de telefone, desde opções vintage até produtos contemporâneos desses mais acessíveis made in china.
ou seja, a ideia da bolsa de telefone per se não é 100% original, e muito menos nova. mas o que a gente percebe é que cada uma dessas bolsas tem seu jeitinho, seu material, sua proposta e seu público alvo. gosto muito da moschino; quem me dera ter orçamento para tamanho luxo. a vintage dos anos 60, com etiqueta e tudo, me conquistaria por ser, justamente, vintage e, portanto, um item único; mas ela é meio plastiquenta demais pra mim, não sei se gosto de como o fio de porquinho tá conectado com o resto da bolsa, por um buraco, e o receiver e os botãozinhos clicáveis no meio dão uma cara muito contemporânea - prefiro as versões mais arrendodadas e com cara de antiguinhas. a da betsey johnson também não é muito meu estilo, tem cores demais, o receiver tem o mesmo problema da anterior (muito moderninho), e o coraçãozinho no centro deixa tudo mais infantil do que eu gostaria.
a que eu tenho, preta em camurça com detalhes dourados, é definitivamente minha preferida, a que mais conversa com meu gosto estético e a que mais orna com minhas roupas. devo considerar um grande sorte que justamente a versão que mais me agrada é a versão fabricada e comercializada no brasil; às vezes os deuses dos desejos consumistas simplesmente me abençoam, sabe?
e, nesse caso, não posso dizer que me incomoda ela ser meio que um plágio, sabe? afinal, quais seriam as chances de eu ter esbarrado numa bolsa anne marie of france, vintage, em formato de telefone pelos brechós físicos e virtuais desse mundão? não seria impossível, afinal as bolsas existem por aí pelo planeta, mas seria altamente improvável. além disso, no site da sotheby's ela é precificada num valor em média de dois mil dólares - alguns milhares de reais mais cara do que a versão brasileira (que eu, inclusive, tive que esperar uma liquidação pra comprar). então, não fosse a existência dessa loja carioca cujo designer decidiu reproduzir a bolsa de telefone vintage de anne marie of france, eu não teria a bolsa de telefone mais bela do mundo no meu armário.
(e, não posso mentir, a situação toda me deixa bem curiosa quanto ao processo de ciração da bolsa: a pessoa viu a bolsa num brechó por aí, na europa, sei lá, comprou e trouxe pro brasil pra estudá-la e reproduzi-la? ou, como eu, esbarrou sem querer numa imagem da bolsa original na internet? ou quem sabe a pessoa já queria fazer uma bolsa de telefone e, à procura de referências, encontrou anne marie of france e se deslumbrou tanto quanto eu? e, para além disso, a dúvida maior: a história de uma bolsa reproduzida a partir de um modelo vintage de uma estilista francesa surrealista é tão interessante, por que não contá-la? por que não fazer isso parte do appeal do produto, um storytelling inusitado, uma conexão da bolsa com a história da moda e da arte?)
eis o que eu pude descobrir sobre a bolsa de telefone de anne marie até o momento:

ela está na coleção do met museum, embora não esteja em exibição atualmente. ou seja, basicamente eu tenho uma bolsa igual a uma do acervo do met, sabe?, que chiqueee! o met creditou a bolsa como sendo da década de 1940, mas na sotheby's ela está registrada como sendo da década de 1960. de acordo com algumas fontes, as clientes compravam a bolsa de maneira exclusiva, e ela vinha personalizada com o nome e o telefone da compradora. dá pra ler o nome, ciade e telefone na foto do site do met, onde também dá pra ver que ela é realmente igualzinha à minha, do formato piramidal ao jeito de abrir, das alças ao material. a original tem um bolso interneo com uma especie de assinatura do ateliê, no

qual está guardado um espelho - tenho outras bolsas vintage de meados de 1940 a 1960 e elas costumavam vir com espelhos mesmo, coisa que não acontece tanto hoje em dia, nem em bolsas mais caras.
sobre a estilista pouco se sabe, apenas o local de sua loja, que durou dos anos 40 aos anos 70 em paris. suas bolsas de balde de champanhe eram os modelos mais populares, deixadas como brinde nos quartos dos clientes vips do hotel onde, no térreo, ficava a loja. já a mais rara é uma em forma de castelo.
enfim, essa divagação toda foi apenas porque eu quis registrar minha incrível descoberta de ser possuidora de uma bolsa inspirada (copiada?) em uma bolsa surrealista do meio do século passado. sinto que a história da minha bolsa ficou muito mais enriquecida, não apenas porque ela faz, de um jeito ou de outro, parte da história da moda, mas porque fui euzinha, sozinha, que descobri esse fato curioso.
em cima a original de anne marie of france, embaixo a minha made in brazil
deixo a grande questão para quem quer se seja que esteja me lendo: no universo da moda e da cópia, considerando as intermináveis discussões e reclamações sobre as cópias na recente fashion rio (e outros centenas e centenas casos de cópia na indústria da moda, sejam em lojas de fast fashion sejam em marcas mais caras e menos acessíveis), o que vocês sentem em relação a essa situação específica, em que algo é copiado de um design antigo, vintage e raro, fora de comercialização, criado por uma grife menos conhecida que as grandes maisons?
pergunto porque eu, genuinamente, não sei direito o que penso: como já disse antes nesse texto, não posso ficar brava, afinal é graças a essa reprodução que eu possuo a bolsa, e a camada extra dessa história de haver uma versão original surrealista só a deixa mais interessante. por outro lado, como eu também já falei, acho que esse tipo de história poderia ser revelada pela marca - eu teria comprado com a mesma felicidade se a descrição no site dissesse que a bolsa era inspirada num design da década de 60, de uma magnífica estilista francesa que brincava com o surrealismo em suas criações.
sei lá.
seguindo o velho clichê de deixar o melhor pro final, e pra terminar esse texto com menos seriedade e mais whimsy, fiquem aqui com essa que pode ser uma das melhores bolsas de telefone já fabricadas: a bolsa do telefone das meninas superpoderosas!!!!



































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