literatura de schrödinger: o melhor de ler é o que não está escrito
- melody erlea

- há 2 dias
- 6 min de leitura

tenho pensado nos livros que amo e por que os amo, e tudo meio que começou quando uma amiga postou nos stories os livros recentes que havia lido e uma breve opinião sobre cada um. na lista dela estava i who have never known men, da jacqueline harpman, uma leitura que ela não havia apreciado tanto. a perspectiva dela era que o livro de jacqueline harpman abria muitas perguntas sem responder nenhuma, deixava a gente num vácuo sem respostas.
minha perspectiva era completamente diferente: eu me joguei na leitura de i who have never known men de cabeça e sem volta. por que eu senti meu cérebro florescendo quando lia jacqueline harpman? por que um livro curto, em primeira pessoa, sem explicação ou resolução alguma pros eventos narrados, conseguiu envolver minha massa cinzenta como um cobertorzinho quentinho envolve meu corpo num dia de frio? por que é que essa história tão inóspita e simples me acolheu e me aconchegou? e veja bem: estamos falando de uma história dura, difícil, incômoda. não há nada intrinsecamente aconchegante na história que harpman conta, mas ainda assim... ainda assim eu me senti como me sentia lendo na infância e na adolescência, depois da escola, na casa da minha vó. eu senti que eu não queria largar o livro, mas, mais precisamente, eu senti que o livro não queria me largar. eu senti que enquanto eu estivesse dentro daquele livro, a vida estava suspendida, eu era parte daquela história e não uma pessoa exterior a ela.

o que eu amei em i who have never known men é justamente o que minha amiga disse não ter apreciado: as perguntas sem respostas, as lacunas, o fato de que o livro escrito é meio que uns 20% da história - os 80% restantes são as diversas possibilidades que minha mente produziu pra completar o que faltava ali naquelas páginas.
o que é i who have never kown men? uma ficção científica distópica? uma ficção de guerra? uma alegoria dos poderes que manipulam a história e a sociedade e das pessoas que sofrem as consequências sem sequer saber os porquês? uma metáfora feminista? o livro pode ser tudo isso ou nenhuma dessas coisas, tudo a depender de como o leitor decide interpretar e completar a narrativa. e eu achei esse livro belíssimo justamente por isso: ele dá espaço para nosso próprio conhecimento e interesse, ele permite que a gente escreva junto, que o nosso filtro de vida interfira em como aquela história será compreendida.
há algum tempo conversei com uma outra amiga, que leu o livro por indicação minha, e rapidamente percebi as possibilidades que se abrem através da interpretação e imaginação de cada leitor: ela imaginava um cenário como nos teletubbies, um gramado verde super saturado em relevos, já eu imaginava um grande deserto árido com pontos de oásis onde havia verde, sombra e água. aproveitamos pra brevemente trocar impressões e teorias - baseadas tão somente nos nossos desejos de resposta e nos pouquíssimos indícios contextuais da história (que a gente relacionou com nosso próprio conhecimento literário, de ficção científica e de ficção no geral).
o fato de a gente só ter a perspectiva da narradora, que também não tem respostas sobre sua situação, também não sabe por que está ali, nem quem é responsável pelo que aconteceu, não sabe sequer o que aconteceu e muito menos onde ela está (em um país estrangeiro? em outro planeta?)... isso me fez sentir mais perto da protagonista; me fez sentir, provavelmente, o que aquela personagem estava sentindo; me causou ansiedade e medo e me fez estar o tempo todo na espera do alívio final. e, assim como na vida real, o único alívio final é a morte. a única certeza que temos é de que nada é certo, nada faz sentido, nada tem explicação. a única companhia com a qual podemos contar é a nossa própria, e ninguém sabe se haverá alguém um dia para revisitar ou recontar nossa história. o que vivemos e vimos acaba conosco, e nem sequer teremos todas as respostas antes de irmos embora.
tem uma beleza tão intocável nisso tudo, mas ao mesmo tempo tão próxima da nossa existência, sabe? i who have never known men é um livro que emula aquela sensação de desespero quando pensamos nas grandes perguntas: o que é que estamos fazendo aqui? por que uma bola de pedra girando ao redor de uma bola de fogo perdida num universo que é majoritariamente composto de nada criou serzinhos tão cientes de sua própria existência? ler i who have never kown men é sentir a solidão cósmica de um ser humano no espaço, é chegar à conclusão melancólica e imutável de que a solidão é tudo. estar sozinho é muito maior e mais comum do que não estar.

[talvez essa minha atual interpretação esteja altamente influenciada pela minha leitura do momento, o majestoso orbital, de samantha harvey. que livro infinito e poético! e também cru, quanta dureza e quanta ternura dentro do mesmo livro - e também quanta sabedoria frente a um universo inteiro, literalmente, de perguntas. a sensação de estar tão distante do planeta terra, ao mesmo tempo que sempre ligado a esse globo como que por um cordão umbilical invisível e longuíssimo, a noção de um planeta que é um lar, mas que também é, tão somente, um planeta dentre muitos nesse lugar inóspito e incompreensível que é o universo. foi lindo esse mergulho introspectivo no que é, filosoficamente e, também, puerilmente, se enxergar humano e minúsculo e, simultaneamente, grandioso e profeta. o questionamento de assistir, de longe, um planeta sem fronteiras, um sistema uno e equilibrado, um planeta pacífico e completamente interligado, e saber conscientemente que de perto esse planeta é fragmentado, destituído de união, submetido a uma natureza feroz e destrutiva da qual estamos sempre à mercê. porra, que leitura, que viagem, que escape maravilhoso da vida cotidiana foi orbital - e também quantas perguntas o livro propõe sem jamais tentar respondê-las]
minha apreciação por lacunas e obras que nos deixam com mais perguntas do que respostas se estende para além da literatura: vários dos meus filmes e séries favoritos permitem esse espaço para reflexões, inferências e hipóteses.

foi lendo esse texto sobre a importância das lacunas e o fim dos finais explicados, que pensei em arquivo x, minha série favorita da vida. arquivo x foi ficando menos interessante conforme as perguntas canônicas da série deixam de ser perguntas e passam a virar respostas e conclusões. a busca de fox mulder por solucionar o mistério do sumiço de sua irmã samantha é envolvente o suficiente para carregar várias temporadas da série - até que finalmente o mistério é solucionado, de maneira meio capenga, claramente com aquele gostinho de "os estúdios e produtores mandaram a gente resolver logo essa confusão". enquanto não sabíamos a verdade sobre a abdução de samantha - foram alienígenas? foi o governo norte-americano em uma de suas várias empreitadas horrendas? foi um sequestro comum cujo criminoso nunca foi encontrado? - essas perguntas tornavam a fantasia toda da série mais relacionável, mais universal. não era sobre um homem procurando sua irmã, mas sobre como essa relação familiar expunha as tantas contradições da vida sob o sistema governamental dos estados unidos. as conspirações partiam de um dilema pessoal do protagonista, mas serviam como um reflexo de perguntas que qualquer um de nós poderia fazer: o governo mente para nós? há vida em outros planetas? a verdade está, mesmo, lá fora? a partir do momento em que a série oferece uma resolução para o mistério de samantha, essas perguntas deixam de ser um ponto central, e a história vira a história de um homem apenas e sua irmã desaparecida - não mais uma metáfora para todos nós.

é como a eterna pergunta da capitu e por que a seguimos perguntando: o que capitu fez ou não fez é o que menos importa. a universalidade e grandiosidade da história é nos proporcionar fazer a pergunta, pra sempre. é a pergunta em aberto que faz da história inesquecível, porque é a pergunta que nos permite olhar mais a fundo sobre as dinâmicas sociais de um relacionamento, sobre as razões e motivações dos personagens e como elas refletem algo profundamente humano.

vou estabelecer aqui o conceito de literatura de schrödinger: é a literatura que existe enquanto capitu traiu e ao mesmo tempo não traiu. a literatura de schrödinger nos abre pro paradoxo eterno da vida, em que perguntas são eternamente perguntadas: por que estamos aqui? podemos confiar nos poderes que nos regulam? por que uma bola de pedra girando ao redor de uma bola de fogo perdida num universo que é majoritariamente composto de nada criou serzinhos tão cientes de sua própria existência? samantha mulder foi vítima de um sistema governamental que engana seus cidadãos? existe vida fora desse planeta? traiu ou não traiu, amou ou não amou, valeu ou não a pena?
enquanto uma história nos fizer perguntas pras quais jamais acharemos a resposta, essa história será amada, eterna e universal.










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