missão quase impossível: ler na internet na era das redes sociais
- melody erlea

- há 5 horas
- 8 min de leitura
faz algum tempo que estou numa peregrinação virtual: onde ler coisas legais?

eu lembro de nos anos 2000 sentar no meu computador no escritório da empresa da minha mãe, onde comecei a trabalhar paralelamente às aulas de inglês que eu lecionava (porque desde a mais tenra idade eu precisava do meu dinheirinho para comprar minhas roupitchas de brechó, e na era da juventude mal paga eu sempre tive essa coisa com acumular vários empregos) e religiosamente abrir o man repeller. esse momento de sentar ao computador e me deliciar com os bem-humorados - ainda que levemente elitistas - textos do man repeller era um ritual quase sagrado que desapareceu conforme minha carreira na educação deslanchou e eu passei cada vez menos tempo sentada em frente ao computador e cada vez mais tempo dentro da sala de aula.
demorei pra perceber que a mudança não foi só minha - foi uma mudança de paradigma virtual que acompanhou, coincidentemente, minha evolução profissional: a gente foi trocando o computador pelo celular no quesito lazer digital. o computador permanece, ferramenta de trabalho, monumento da seriedade tecnológica da vida adulta, mas o celular o substituiu completamente no que diz respeito à diversão online. e, com o computador, foi-se, também, o hábito da leitura online.
passei alguns dias navegando o google e visitando fóruns do reddit com a pergunta: o que os órfãos do man repeller lêem hoje em dia? dizer que não obtive respostas seria injusto: muitos sites maravilhosos que eu acompanhava na época do man repeller, mas que também se acabaram (alguns mantendo seus arquivos online, para graça de minha pessoa, e outros simplesmente gone into the void), muitas sugestões de podcasts e perfis no tiktok e instagram - que, sim, oferecem um conteúdo interessante e divertido, mas não para alguém, como eu, que quer ler ao invés de assistir vídeos e escutar podcasts - e algumas páginas interessantes na nova rede social da moda, o substack.
(acho o substack muito legal pra quem quer escrever e manter a já familiar rotina de rede social - tem seguidores, tem like, tem compartilhamento, tem publipost, tem as panelinhas, igualzinho costumava ter no instagram... mas acho que pra quem quer simplesmente ler, oldschool style, tipo digitar um endereço no browser e ler sem ter que criar conta, sem se inscrever em nada, sem receber email, notificação, sem querer engajar igual redes sociais.... bom, aí o substack já é um sistema meio problemático. eu não quero um popup insistindo para que eu "subscribe", eu não quero pagar para ter acesso a mais conteúdo, eu não quero interagir com botõezinhos, eu não quero me inscrever em mais uma rede social, eu não quero nada disso. eu só queria entrar num site ou num blog e ler, sabe? no máximo dos máximos scrollar até a seção de comentários para, pasmem, ler mais).
na minha peregrinação pela interwebs em busca de sites e blogs, tive momentos deliciosos relendo textos de finados e super populares sites escritos majoritariamente por mulheres. esses sites eram sobre moda, sim, mas mais do que isso, eram sobre me encontrar num espaço virtual seguro em que gostar de moda não era antônimo de ter um cérebro. eram sites em que eu lia sobre novas coleções de moda, e sobre literatura, e arte, e cinema, e tv, e música, e consumo (do tipo superficial e imediato, mas também do tipo: por que consumimos e o que consumimos? por que roupas fazem nosso coração palpitar? por que eu sou obcecada com roupas vintage?). esses sites eram espaços em que a discussão sobre ser mulher no início do século XXI abrangia um universo que eu queria explorar e dominar e que, até então, me parecia proibido por, justamente, ser associado ao gênero feminino.
ler o man repeller - e o coveteur, o selby, o closet visit, o racked, e tantos outros cujos nomes eu não me recordo - era abrir uma porta e entrar num mundo novo onde ser mulher, com toda sua superficialidade e sua profundidade, era discutido, era abraçado, era visto. não era sobre comprar - embora houvesse muitos e muitos artigos sobre compras e tendências. não era sobre observar o estilo de alguém para emulá-lo através de links afiliados e cupons de desconto - embora houvesse fotos de looks do dia e sugestões de onde achar itens similares.
vale lembrar que aquela era, também, a era do millennial optmism (e da internet ainda relativamente livre). as fotos eram super saturadas, os textos eram cheios de piadas espirituosas, a vida parecia estar assim a um punhado de ser agarrada com todas as forças e vivida. esses sites eram o registro de uma mentalidade, uma filosofia e um sentimento geracional que, simplesmente, não existem mais. o instagram era um acessório, não a fonte suprema de todo o conteúdo online. vídeos eram uma graça à mais, não a única maneira de ser ouvido online. e parte desse otimismo da geração y era o que fazia esses sites e textos terem um gosto especial - que não funciona mais para os dias de hoje.
falar sobre moda e sobre se vestir enquanto assistimos ao mundo pegar fogo não tem o mesmo sabor, e soa, muitas vezes, tone deaf. cada vídeo que assisto no tiktok ou instagram de gente descrevendo que item de moda odeia, ou que tendência é fubanga (ou qualquer outra palavra do momento), ou como se vestir "do jeito certo", eu me encolho na cadeira com nojinho: com o mundo no estado em que está, qual é o sentido de ficar julgando as roupas dos outros? qual é o sentido em descrever meu look e porque eu estou usando essa roupa e onde ela foi comprada? qual é o sentido em exibir uma materialidade fashion que só nos lembra do oposto, de quem, em tantas partes do mundo, não tem nada? por que passamos tanto tempo pensando em nós mesmos e falando de nós mesmos online, sabendo que a vida lá fora tá, ó, uma bela bosta? por que tanto conteúdo fazendo outras pessoas, outras mulheres, se sentirem mal com suas escolhas de vestimenta?
é por isso que passear por esses arquivos dos anos 2000 e 2010 foi uma onda de inspiração. um texto inteiro sobre tentar achar um keds simples branco, e o que isso dizia sobre a grande tendência dos tênis (que estava só começando e, pressinto, está agora prestes a terminar) [esse artigo estava online e disponível nos arquivos do site racked até algumas semanas atrás, agora também é parte do limbo esquecido da internet de outrora]. um texto de 2018 sobre como aretha franklin, em 1993, já estava respondendo à altura a jornalistas que queiram discutir seu corpo. artigos sobre o estilo de jenna lyons, a mulher que, mesmo magérrima e altíssima, parecia desafiar todos os padrões do mundo da moda. o texto escrito por jenna-lyons-a-própria sobre sua adolescência, bullying, e a saia de melância que mudou tudo (texto esse publicado no site de essays e memoirs de lena dunham e jenni konner, um monumento digital da estética e da voz dos anos 2010). os registros fotográficos do finado closet visit, que retratavam o estilo de mulheres norte-americanas que, embora ricas e privilegiadas, faziam questão de esculpir uma identidade própria e uma história através de suas escolhas de roupas, tecidos, acessórios. a tradição dos registros fotográficos dos lares e guarda-roupas de pessoas extraordinariamente excêntricas no selby - tradição que continua (de maneira menos excêntrica mas tão extraordinária quanto) no coveteur closets.
a narrativa era sempre sobre individualidade, diversão, escolhas e história. não tinha ninguém te ensinando a ter um guarda-roupa funcional, ou a "encontrar seu estilo próprio", ou a se vestir melhor através da sua cartela de cores, ou a ter um armário cápsula, ou a imitar uma estética em voga no momento, ou a usar o item de moda menos fubango ou brega ou demodê. não era sobre comprar quilos de roupa num brechó e fazer um vídeo enaltecendo o consumo nas redes sociais para mostrar todos os itens, não era sobre exibir coleções pessoais de roupas de grife (vintage ou não), não era sobre ir na loja de fast fashion para comprar todas as roupas da nova parceria com algum estilista do momento e exibir na internet. era muito mais sobre como todas essas coisas que colecionamos ao longo da vida ajudam a contar uma história - a nossa história. era sobre o achado - no brechó, ou na loja de departamento, ou na loja de luxo - que acrescentava algo relevante à narrativa de nossas vidas. era sobre os aprendizados fashion que vinham de nossas mães e nossas avós e como tudo isso se juntava e aparecia em forma de uma foto ou um texto na internet que fazia quem estava lendo se sentir bem: não com inveja, não mais pobre ou mais feio, não com vontade de emular aquele estilo de vida sem ter os meios. apenas bem. apenas feliz de ter uma comunidade online de mulheres inteligentes e engraçadas e estilosas, cada uma do seu jeito.
não era uma competição de quem estava mais antenada, não era uma luta por ganhar a internet com uma opinião, não era uma corrida para saber quem postaria primeiro sobre o assunto do momento. não era, definitivamente, uma busca constante por vender algo, por convencer o leitor a comprar algo, por seguir girando a manivela capitalista do consumo - o consumo tava lá, mas de outra maneira, mais sutil, menos afetadamente óbvio.
mesmo o substack, atualmente a opção menos tóxica de consumo de conteúdo online, é cheio dos vícios da nova internet: é muita picuinha, é muito auto-centrismo, é muito transformar qualquer discordância em polêmica-salvadora-do-mundo, é muito precisar sempre se expressar sobre seja lá qual for a conversa online do momento. há coisas legais no mundo do substack, mas elas se perdem no grande chorume que sobrou das relações digitais na era das redes sociais. é quem assiste big brother brigando com quem não assiste (como se um ou outro fosse, nossa senhora, o símbolo do ser humano iluminado). é escritora escrevendo sobre sua própria vida e o bofe que a estragou pra cutucar outra escritora que agora pega o tal do bofe, e tudo isso postado sob os holofotes do feminismo como se o país todo precisasse se envolver porque é algo de cunho, meudeusdocéu, importantíssimo para a vida de todas as mulheres. é a podcaster famosinha que fez um publi pra uma marca sem saber do que se tratava, e se ela tá certa ou errada, e se a assessoria dela é a culpada, e porque todos nós devemos nos importar. é um texto atrás do outro, e todos milimetricamente iguais, sobre o novo artista do momento e o show do super bowl e todas suas implicações políticas e sociais e antropológicas. é toda semana um grande grupo de escritores da panelinha do substack escrevendo sobre os mesmo temas, e sempre com aquele viés que se percebe tão rapidamente: é pra dar like, é pra ter engajamento, é pra ter briga virtual e, se os envolvidos derem sorte, virar até tema de podcast desses bem populares. isso sem contar as publis que, meu bom senhor, conseguiram furar as fronteiras do instagram e do tiktok e agora tão nos textos de blog também.

sei lá. eu tenho aqui no meu site minha seleção de blogs legais (a grande maioria, infelizmente, publicados no substack, mas eu tento me afastar da galera hype da internet e ler gente que escreve sobre o que gosta do jeito que gosta, só porque escrever é legal), mas mesmo assim eu sinto falta da web 1.0, sabe? aquela web ingênua, em que a gente aprendia html na mão pra montar nossos blogs no blogspot e escrever uma mistura de diário com observações com opiniões, sem o peso de tentar ser uma personalidade da internet. eu sinto falta de anonimidade que nos permitia ser honestos, tolos, e compartilhar o que nos encantava sem preocupação com engajamento, ciclo de notícias ou divulgar a marca parceira.
eu sinto falta mesmo da leandra medine postando uma foto com uma saia que ela mesma descrevia como feia-horrorosa e, por isso mesmo, grandiosamente atrante, mesmo que suas franjas e design apontassem diretamente pra sua vagina. sabe? eu sinto falta de gente que entenda que uma roupa feia que aponta pra nossa vagina é intrisecamente bonita. eu sinto falta de alguém poder descrever uma roupa que ama usando a palavra vagina - não para causar polêmicas e discussões, mas simplesmente porque isso era o que ela sentia.







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