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sonhos surreais e desejos materiais (de segunda mão)

  • Foto do escritor: melody erlea
    melody erlea
  • há 3 horas
  • 6 min de leitura

tudo começou com uma bolsa de tatu


essa bolsa de tatu ocupou um espaço no meu cérebro que podia muito bem estar sendo usado para coisas mais nobres e intelectuais, but i'm just a girl. e às vezes a girl wants a bolsa de tatu.


achei a bolsa de tatu no enjoei, e ela era caríssima. fiz uma oferta que foi aceita, descolei um cupom de desconto, e juntei os ganhos das minhas vendas no meu enjubank pra adquirir a bolsa sem movimentar minha conta bancária. nesse ínterim, mergulhei na piscina virtual da internet para procurar informações sobre a bolsa. porque, tipo, uma bolsa de tatu???? quem teve essa ideia repugnante porém belíssima?


o que eu descobri: essa bolsa em específico era feita nos estados unidos, no texas, um lugar onde os armadillos são muitos e muito amados, considerados o animal oficial do estado, e precisamente por serem representativos da região - e se proliferarem muito - foram usados como souvenires dos mais variados tipos até meados da década de 1970. um desses souvenires era a tal bolsa de tatu, que começou a ser fabricada em 1890 quando o alemão charles pelt, recentemente chegado aos estados unidos, encontrou e assassinou seu primeiro tatu. o bichinho, todo durinho e texturizado, encantou o alemão (e por encantar eu quero dizer despertou um instinto genocida empresarial), que fundou sua fazenda de matança de tatus para produzir bolsas de tatu empalhado.


essas bolsas tiveram um ápice de popularidade, principalmente entre turistas visitando o texas, no início do século XX, e a partir dos anos 40 foram sendo menos e menos produzidas, até o fechamento da fazenda nos anos 70. pelas fotos que achei, e as poucas e parcas discussões online, deduzo que a minha bolsa de tatu é da década de 70 (confesso que eu estava torcendo para que ela fosse mais antiga, porque o selo antiguidade deixa qualquer coisa mais culturalmente valiosa; mas uma bolsa de 50 anos atrás já é vintage o suficiente para eu considerá-la uma relíquia).


é difícil realmente entender a história da bolsa de tatu texana porque é percetível que, na internet, a narrativa foi cuidadosamente curada para ser uma história leve e curiosa. a verdade é que, como qualquer produção de itens de vestuário e decoração feitos de bicho, é bem provável que a coisa fosse bem tenebrosa, nível aquele filme o albergue só que versão tatu. a única página que parecia contar uma versão menos conto de fada da história da bolsa de tatu está inacessível e fora do ar, para a surpresa de ninguém.


curiosamente, nas minhas pesquisas, descobri que na argentina também houve, mais ou menos no mesmo período, uma tendência de cestas de tatu, e aqui no brasil existe a versão indígena da bolsa de tatu, mais simples do que a texana mas igualmente curiosa (ou horripilante, tudo vai depender do seu ponto de vista). algumas dessas bolsas indígenas de tatu estão à venda em leilões online na internet e não são muito caras. imagino, simplesmente porque aqui em terras brazucas gostamos de acreditar na índole do estilo de vida indígena, que a versão brasileira era feita de maneira um pouco mais ética do que a versão texana (tipo com carcaças de tatus que morreram de causas naturais, ou pelo menos aproveitando o bicho todo como alimento, não apenas para uso estético fashion), mas há na internet ainda menos informação sobre as bolsas de tatu brasileiras do que as texanas. sobre as cestas de tatu argentinas achei essa página bem pesquisada, e que esbarra de leve na história das bolsas de armadillos texanos e de tatus brasileiros.


(algumas da imagens na galeria abaixo podem ser chocantes para almas sensíveis, naveguem com cautela)



depois, veio um filme francês


foi no meio desse minha viagem doida pelas bolsas de tatu que meu namorado me sentou no sofá para assistir a animação francesa la planète sauvage (planeta fantástico, em português), de 1973. eu, como fã fervorosa de ficção científica, fui impactada e entretida pelo filme até não poder mais, e influenciada pelos louvores do namorado a outro filme do mesmo diretor - les maîtres du temps (mestres do tempo), de 1982 - rapidamente descobri que ambos os filmes são adaptações de livros de sci-fi do mesmo autor, stefan wul.


e foi assim que começou uma perenigração online obsessiva similar à da bolsa de tatu.


o livro oms em série, que deu origem ao filme planeta fantástico, é simplesmente uma relíquia literária da ficção científica: na amazon não encontrei versão para o kindle, e as versões físicas são caríssimas, tanto no original em francês quanto nas traduções para o inglês (traduzido como fantastic planet). na tradução para o português (cujo título é no mundo dos draags, lançado no brasil e portugal pela colecção argonauta), achei só um na internet, também caríssimo, e já estava vendido. no fim, encontrei um epub pirata da tradução para o inglês, e saí dessa jornada satisfeita.


l'orphelin de perdide, livro que deu origem ao filme mestres do tempo, foi mais fácil de achar pela interwebs. também não há versão para o kindle à venda, mas a tradução para o português também foi lançada em portugal e brasil pela colecção argonauta - uma incrível coleção de livros de ficção científica com centenas de edições. eu quase cometi a loucura de comprar um lote com 80 livros na esperança que os de stefan wul estivessem ali no meio, antes de encontrar o vagabundo das estrelas: a maravilhosa tradução portuguesa do título original em francês, daquele jeitinho de usar o idioma que só os portugueses conseguem, sabe? não achei l'orphelin de perdide na tradução para o inglês, que eu na verdade preferiria, mas me satisfiz com a tradução para o português porque ***o vagabundo das estrelas*** é um dos melhores títulos possíveis na história da literatura.



a procura por esses livros foi uma viagem por si só: muitas vezes na internet os livros se confundem com os filmes, e quando você acha que está chegando a algum lugar descobre que não, que os livros ainda estão inalcançáveis e que, no fim das contas, você estava lendo alguma discussão sobre os filmes. as capas se confundem, as traduções dos títulos se confundem, é tudo uma grande e belíssima confusão, daquelas que dá um nó gostoso no cérebro e vontade de continuar a se embrenhar na doideira, sabe? depois de achar os livros que eu queria ainda passei um bom tempo explorando a tal da colecção argonauta, que é cheia de títulos interessantíssimos de escritores que amo e de escritores dos quais nunca ouvi falar (a ficção científica é mesmo esse gênero tão prolífico e tão subestimado, né?)


e tudo se misturou no meu subconsciente


de repente me vi no meio daquela madrugada tendo os mais loucos sonhos sobre bolsas de tatu e livros de ficção científca esgotados e inalcançáveis, tudo transformado numa grande loucura surreal mas, ao mesmo tempo, tão fisicamente real, sabe? eu não lembro de jamais ter acordado de um sonho lembrando da textura das coisas nas quais encostei durante o tal sonho, mas dessa vez lembrava com nitidez de achar um livro raro num sebo da minha antiga faculdade, a fflch, e sentir na ponta dos dedos a textura do plástico envolvendo o livro. quando achei uma segunda cópia, mais barata porém mais mal-cuidada, lembro de passar o dedo pela lombada do livro, onde parte da capa estava descascada, e sentir com uma clareza absurda a diferença da textura da parte não danificada da lombada e do papel seco danificado onde a lombada descascou. também, no sonho, tentei procurar o livro na biblioteca da faculdade e consigo nitidamente sentir a textura da minha carteirinha, plastificada e durinha, entre meu indicador e polegar.


quanto à bolsa de tatu, foi menos sobre sentir texturas (até porque eu ainda nunca senti a textura de uma bolsa de tatu - ou sequer de um tatu vivo - pra poder reviver a sensação num sonho), mas mais sobre o medo de perder a bolsa, de ela ser vendida no enjoei e eu procurar desesperadamente por outra em vão, encontrando algumas versões destruídas e mal cuidadas, parcialmente roídas por ratos que agora jaziam mortos dentro da bolsa e, caso eu decidisse comprar, seria minha responsabilidade dar um jeito de tirar o rato morto de dentro e higienizar a bolsa - e eu pensava no sonho "mas como; COMO???? como vou me livrar dessa rato morto?" e foi em meio a esse questionamento que acordei em plena madrugada e curti uma insônia obsessiva pensando em bolsas de tatu e livros de ficção científica.


e assim termino esse texto abruptamente como meus sonhos: sem conclusão ou lógica, porque a vida faz tanto sentido quanto uma viagem surreal sonolenta (mas comprei a bolsa e comprei os livros, e, no fim das contas, isso é o que importa no grande esquema capitalista das coisas: que sigamos comprando tranqueiras, mesmo que sejam de segunda mão).


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