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sonhos de consumo fashion: roberta di camerino

  • Foto do escritor: melody erlea
    melody erlea
  • há 16 horas
  • 4 min de leitura

eu já entrei na onda roberta di camerino uma vez, alguns anos atrás. descobrir essa estilista italiana, fugida dos nazistas, que trocou de nome e fez história na moda com suas criações surrealistas com estampas tromp l'oeil em veludo exclusivíssimo de veneza foi algo que se tornou uma leve obsessão a ponto de eu gastar 600 reais numa bolsa dela que achei no enjoei - e quando chegou eu descobri que era uma mini bolsa de menos de 10cm e imediatamente solicitei devolução e estorno, porque até no auge obsessivo vintage consumista eu sei quando sou engambelada.


tudo voltou como um deja vu fashionista quando, sem procurar e sem querer, achei outra bolsa da roberta di camerino no enjoei. dessa vez fui menos impulsiva e deixei o achado lá nos meus yeahyeazados pra eu apreciar por mais alguns dias enquanto decidia se eu realmente queria possui-la.


roberta di camerino começou a vida com o nome de giuliana coen, em veneza, e se exilou na suíça durante a segunda guerra mundial. para conseguir algum dinheiro e sobreviver, giuliana vendeu a única bolsa que tinha, feita na itália e trazida de lá quando ela fugiu, e com restos de couro e tecido fez à mão uma nova bolsa para si mesma.


essa bolsinha feita para uso pessoal se tornaria um dos maiores ícones da estilista: a bolsa bagonghi, que foi usada por grace kelly e elizabeth taylor. inclusive, até pouquíssimo tempo atrás havia uma bagonghi dessas classiquísismas no enjoei. mas, embora esse modelo de bolsa seja hoje o mais importante de camerino, foram os designs em tromp l'oeil que marcaram a inventividade da designer, que chegou a andar com salvador dalí, um parceiro na estética surrealista.



giuliana se tornou roberta quando fundou sua marca, roberta di camerino, que soava, para ela, como um nome mais impactante - e foi como roberta que ela deixou sua marca na moda. existem duas lendas para a escolha desse nome: roberta pode ter vindo do musical homônimo para o qual a canção smoke gets in your eyes, dos platters, uma das favoritas da estilistas, foi escrita; ou pode ter sido inspirado pelo filme roberta, de 1935, estrelando fred astaire e ginger rogers.



a logo de sua marca representa seus designs mais famosos: um desenho de um cinto que forma a letra R, e que está presente em muitas de suas criações, de bolsas a roupas. a ilustração do cinto, criando uma ilusão nos modelos, é marca registrada de roberta e facilmente reconhecível. outra marca registrada da estilista é o material escolhido para suas bolsas e roupas, o veludo veneziano, produzido exclusivamente em veneza. seu fornecedor de veludo, bevilacqua, notoriamente só produz de 30 a 80cm de veludo de seda por dia. ou seja, um mesmo design pode demorar até um ano para ser finalizado. a combinação da exclusividade do material com a inventividade dos designs garantiu que camerino fosse alçada ao mesmo nível das grandes de sua época, como chanel e schiaparelli.


como costuma acontecer com os grandes, roberta teve ideias que depois foram reproduzidas e creditadas a outras grandes maisons: ela foi a primeira a estampar bolsas com sua logo repetidamente, o que depois foi copiado por gucci (e louis vuitton, fendi, etc). ela foi a primeira a criar bolsas de tirar de couro trançado, o que virou característico da

bottega veneta. também criou uma bolsa com uma moldura articulada, invenção assimilada pela prada. foi desabafando com sua colega, coco chanel (de quem também era cliente assídua) que entendeu: ser copiada é análogo a ser relevante; problema, mesmo, seria quando parassem de copiá-la. o tromp l'oiel, característico de camerino, aparece também em alguns designs de schiaparelli, sua colega contemporânea de moda surrealista (e com quem compartilhava uma amizade com salvador dalí e outros artistas surrealistas), e mais tarde em algumas das criações lúdicas da moschino.


é justamente nessa intersecção de moda lúdica e/ou surrealista que a roberta di camerino me pega e atiça meus desejos fashion. além do fato de que possuir uma bolsa dela é, também, possuir um pedaço da história da moda e, portanto, da história per se. e, se eu não posso me nomear uma colecionadora de itens vintage de arquivo porque o número de itens de designers renomados existente no meu guarda-roupa é muito pequeno para tamanha alcunha, eu posso me orgulhar de ter garimpado, ao longo dos meus muitos anos de obsessão fashion, peças da vivienne westwood, comme des garçons, issey miyake, yves saint laurent, pierre cardin, kenzo, margiela, prada, valentino além de outras inúmeras peças vintage sem etiqueta de luxo, e algumas preciosidades de marcas brasileiras. uma bolsa vintage roberta di cameirno tromp l'oeil caberia tão perfeitamente nessa coleção, sabe? melhor só se eu conseguisse também um tricô vintage tromp l'oeil da elsa schaiaprelli, mas a realidade é que um item roberta di camerino é muito mais possível de garimpar - já achei três bolsas dela no enjoei, duas no mercado livre, e pesquisando na interwebs ao redor do mundo há muitos itens dela disponíveis nos sites de venda de segunda mão.


da última vez que tive uma obsessão consumista-fashion-vintage eu acabei adquirindo uma icônica e inacreditável bolsa de tatu, que também me colocou num rabbit hole de história, tendências de moda, colonização e capitalismo. e é isso que eu amo na moda: quando ela abre na minha cabeça uma aba quase inesgotável de pesquisa histórica e conhecimento.


mas existe uma diferença entre um item de moda que me faz querer pesquisar sobre história e um item de moda que eu quero materialmente ter na minha casa. pra eu trazer pra casa, preciso sentir que o item conversa com minhas roupas, meu estilo e meus desejos de imagem - como a tal bolsa de tatu. até o momento, nenhuma das bolsas da roberta di camerino que passaram por mim me despertaram, de verdade, esse desejo material de possuir. há o desejo histórico, a vontade de ter em mãos uma peça que é icônica e histórica por si só, mas esse desejo acaba se resolvendo nas leituras, pesquisas e descobertas. então, por mais que eu esteja tentada adquirir essa bolsa de veludo veneziano da roberta di camerino disponível nesse momento no enjoei, eu sinto que ainda encontrarei a bolsa tromp l'oil camerino que vai falar com a minha alma, sabe assim? por enquanto, satisfaço meus desejos e curiosidades com esse singelo post, e deixo a bolsa disponível para alguém que se encante com a história de roberta di camerino tanto quanto eu.

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